quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

niente, de nuevo, rimas baratas, palávras fáceis, é isso

Doce,
de tanto olhar o mar por essas janelas desse quarto de hotel que pouco me agrada andei pensando e acho que a complexidade e a plenitude do sentimento que compartilhamos habita uma linha tão tênue, mas tão tênue, que beira o limiar do amor convencional com o real. Nos amamos, ao meu ver, tão complexa e simplesmente, que tal sentimento parece impraticável por nós. Sinto muito a dor do esclarecimento, e meus olhos ardem ofuscados pela luz, mas meu coração repousa.. Oh, doce, procuro e pouco encontro como te dizer... Eu sempre encontro uma maneira de te agredir, de testar a nossa cumplicidade,
pois eu não compreendia
o tamanho
do que sentia
e testava
só pra ver se encontrava
a borda tua
confundida na minha
por onde transbordava
o meu amor.
Amor menino,
doce, desamor

E pode dizer isso tudo no teu presente,
Doce Meu, pois eu coloquei no passado
só pra ficar mais bonito assim rimado,
nosso amor que já morreu


minto



Coloquei no passado só pra ver se você entende de vez
que, na verdade,
juntei a poesia com a utilidade
de dizer que já passou
pois não me apetece mais a rima, amor
essa canção não mais merece
a rima que um dia ofereci com tanto ardor

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Niente

O acanhamento não foi suficiente e então, de súbito, nua, ela levantou. Com medo de olhá-lo, com medo da reação dele, virou de costas para ver se amenizava a ansiedade: Me ama? Verbaliza esse amor, por favor!
Ele corou, se encolheu no canto da cama e, por detras das duas mãos que tapavam o rosto enrubecido, - e ela apenas pôde constatar isso pois a curiosidade, que era tanta, lhe impulsionou a espiar por cima dos ombros - bem baixinho, as palavras escorreram pelos dedos
palavras proferidas tão
tímidamente
cuidadosamente
escorreram , finalmente:

bláblá*)9*)$u3rj3á=)(L)s2!)$*(#lá

Me ama mais alto? Apenas mais alto?
por favor

oioioioioi

toda essa vontade de preenchimento, de dar sentido à existência, ser egocêntrico que suga energia, fagocita o meio e quem o preenche, demanda atenção e só se contenta com a expectativa sanada
como combustível
como contentamento e desencanto quando a expectativa é quebrada
só para tornal suportável esse mar paradoxal e fluido que é a vida, ou a ilusão

que é beleza
e feiúra

ora amor (nos dias mais pessimistas me convenço de que só existe amor de fora pra dentro, de expectativa pro ego, entende?) dor, raiva, ora preguiça,
ora vontade
flor, cor, sujeira
ora ignoro, ora desespero
e espero
ora demando, e, se merecem essa minha humanidade, quem sabe um dia me dou
quem sabe me dôo
OU
quem sabe um dia, borboleta, só vou e fluo, leve
quem sabe um dia, num eu tão mais longe de onde hoje me protejo, mais humano!
quem sabe mais feliz
OU
quem sabe ser humano é isso mesmo,
quem sabe o que digo não passa de utopia
quem sabe

quem sabe espero
um dia menos demanda
quem sabe um dia apenas - por vezes acho que prefiro apenas
apenas ser, ou apenas apenas, sem verbo
APENAS  e simples
simples
feliz
tchau, ego
E, se lhe acalentar o coração
concedo-lhe a leitura desses versos no teu presente, doce meu

pois coloquei no passado 
só pra ficar bonito assim rimado, 
nosso amor que já morreu

domingo, 5 de dezembro de 2010

bento, homem, menino casmurro

     É que hoje eu sou um homem apaixonado e essa música me faz mais sentido. Hoje, a-pai-xo-na-do, paro para ouvir uma música qualquer bonita e ela me soa completamente real... é preciso desculpar-me pois irei escutá-la até que me faça sentir alguma completude perto da que ela me preenche, Ela, não a música.
Hoje, apaixonado, não um cara qualquer, mas um Homem. Não menino, ou jovem, Homem !! Sim, homem como Bentinho pré Casmurro proclamou aos quatro ventos após ser beijado por Capitu... pela primeira vez, Homem de verdade.
      E quando escuto essa música e ela me soa real e me sinto homem e tento encontrá-la e entender por que Ela, minha menina, e tento escrever pra ver se entendo melhor o por que Dela, de ser Ela, de Eu ser Dela, ou disso que me chamam de coração, me parecer pertencer somente a ela, Ah, coração, me diz! Tu sentes também? Me faz um chá, me conforta... ou eu é quem deveria? Tá precisando dalguma coisa? É, eu também. Também não sei, também sinto vertigem,
     E a vejo, a vejo lá no fundo desse poço que me causa vertigem.


    Imagina uma cena assim de um filme bem maluco... uma cena onde toca essa música, imagina a câmera cambaleando entre o olhar dela e aquele sorriso só dela. Primeiro os olhos. E ela pisca, e olha bem fundo na câmera e no olho de quem vê, e encanta. Um olhar que não apenas olha, mas encanta e causa vertigem, Daí, algumas luzes! coloridas, indiretas, ora ofuscam, ora revelam... E confundem, a câmera mostra uma mão, confunde um sorriso com um suspiro e uma mão que aperta uma outra mão e..  e os olhos dela novamente! Alguém a gira, alguém a segura pela cintura e a deita nalguma superfície macia, num lençol de chita, de retalhos, e a queda a diverte e a faz rir e ela dança, com as mãos, e sorri, semi-nua, ela sorri e chama aquele alguém sortudo que a olha e que de repente cai tonto ao lado dela... E as luzes se mesclam novamente o sorriso e os lábios e algum suposto beijo que confunde os olhos de quem vê,
     E tudo junto confunde o coração de quem sente, isso! Isso assim mesmo! Com a música bonita e as imagens cores confundidas provocando sinestesias e conforto nos olhos de quem sente. Ah, coração, eu sinto! Sinto e consigo ver os lábios dela sorrindo, os lábios chamando, os lábios e os olhos e a vertigem que tudo me chama e me causa, e eu sou aquele homem que desaba tonto diante dela
     e a música e eu homem, hoje, entorpecido embrigado diante dela tão mulher e eu tão menino. Eu tão Bento, ela tão, ela Capitu. Capitolina, menina, dos olhos negros feito jaboticaba olhos de vertigem, talvez ressaca. Queria desenhá-la, descrevê-la em versos, em notas musicais não sei, é verdade, queria alcançar a poesia que ela merece e traduzir toda cor que vejo, a cor nela e das palavras que ela fala,.. ela tem dessas manias de palavras elegantes que mal sei dizer, sei que gosto de ouvi-la dizer e me sinto menino tão Bento perto dela quando ela diz Por outro lado, tão Casmurro quando ela vai, e quando a minha meninice de Bentinho me rouba as minhas próprias palavras quando quero e tento dizer algo para que ela não vá e não consigo e ela vai mesmo assim Ou quando a palavra amor vem à garganta e eu tão Casmurro contido em mim mesmo tento sufocá-la pra ver se ao menos uma partezinha de mim continua intacta protegida longe dessa mulher que me apaixona os sentidos e me rouba o fôlego e o olhar sempre que passa, Como que conter a palavra amor ou a frase eu te amo fosse ainda me resguardar de um amor que eu já tanto sinto mas que o fato de ela não saber assim tão profundo me protegesse, me resguardasse de alguma dor futura e é como se eu precisasse me sentir protegido e inteiro diante dessa mulher que me avassala pois se um dia ela se for eu vou enlouquecer, sei lá, sei não, coração, eu não sei o que vai ser de nós, juro que não sei pois juro que tanto procurei e só agora encontrei alguém tão mulher e tão poesia e tão diferente de tudo e todos e juro que não há nada no mundo que roubar-me-á o fôlego como a minha Capitu o faz, ah, tolo coração, 
     tola língua que esconde a palavra amor
     mesmo eu  sabendo que caso um dia ela se vá justamente por não saber desse meu amor que tanto temo externar 
     enlouquecerei de fato e tornar-me-ei casmurro de vez 

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Ignorance is Bliss (rascunho)

    Para quem um dia trocou cartas de amor convencional com aquele jovem José de Teresina, o vô Zé que agora dormia todas as noites ao seu lado fazia-lhe pensar que aquele ali deitado vinha de Teresina não, parecia era ter nascido noutra terra bem gelada. A realidade é que fora sempre assim, gelado, distante, abismo. O que lhe aflingia agora era como isso havia se agravado. E estar deitada ali, naquele momento como em muitos outros, não fora escolha dela, não!, a vida havia, há tempos, lhe pedido isso - e agora Sartre se revira em seu túmulo. A família a havia obrigado, era tradição, ora pois! Pelo menos ela tinha tido o conforto que lhe haviam prometido, ficar pra titia que nem a irmã? Deus que me livre.
     De qualquer forma, começaram com as cartas, ela e o José. Era intrínseco, na família, que durante os preparativos para os casamentos as moças trocassem cartas com os rapazes para que familiarizassem um tanto, um mínimo. Correspondências minuciosamente analisadas pelos patriarcas, é claro. Nas primeiras cartas que trocaram, os dizeres dele, do Zé, vinham cheios de promessas, formalidades e expectativas - e o coração dela batia sem nem saber por que. Sou assim, sou assado, dizem da minha beleza, tenho vontade de família, cinco filhos, uma pinga depois do café sempre vai bem. Prometo-lhe segurança e reputação, querida prometida. Ela ansiava, algo nela ansiava... criou em si um sentimento parecido com a paixão, de fato até pode ter sido paixão - acho que esses nossos corações orgânicos cheios de insanidade, seriedade,  convições, sonhos e razão, conseguem construir qualquer coisa, qualquer sensação, basta um impulso externo, independendo do contexto e da situação. Sendo assim, talvez por ela nunca ter conhecido ou visto o amor de verdade, promessas vindas do sexo oposto bastavam para que pensasse ser amor. Fazia sentido, afinal, a herança dele era maior do que o Zé da vizinha... ela era mesmo uma menina de sorte.
     A perspectiva lhe enchia os olhos, os quais agora, em pleno séc. XXI, espiavam o Zé da pinga depois do café com uma indiferença tão terna que os tornavam opacos, opacidade e indiferença que vinham do coração por demais acostumado. A vida tornou-se docemente mecânica, se é que um dia foi diferente.

     E sssim foi, depois das cartas trocadas. Esposa desde os dezenove anos de idade de um tal José, rapaz de família rica lá do Piauí, herdou a fazenda do avô e veio. Junto dele, lá foi ela. Casou-se, sangrou, se submeteu. Pensou amar, de fato abraçou, abraçou sua condição e também aquele Zé que dormia ao seu lado, que fazia amor com ela, que lhe pedia mesa posta, atenção e roupa lavada. 
     E assim foi sendo. Requentou-lhe o café todos os dias, lavou suas roupas, beijou sua testa e fingiu, em gemidos, e nos ouvidos daquele Zé que aprendeu a gostar, a satisfação que quase nunca sentia. Assistiu muita televisão depois que puderam compar uma, começou a ter contato com aqueles filmes cinquentistas românticos que enchiam jovens corações de esperanças, ela estava conhecendo o amor, dizia. E a dor tmabém, a dor de algum vazio que começava a se abrir em seu estômago. Mas era tão interno que pouco sabia interpretar, achava que era má digestão.
     E Agora... bom, agora continua sendo. De início, esse agora, numa metadinha de um séc. XX que passava velozmente... mudanças, Jesus Amado, que que tá acontecendo com o mundo?, lhe soou um tanto mais amargo. Passou, e o mundo continuava a transbordar informação. Começou a arder ser mulher em pleno séc. XXI, seus velhos hábitos e valores ficando para trás, o que fazer com eles? Jesus, Maria, José, que trem complicado de ser, que liberdade complicada de gerir! Preferiu manter-se onde sua realidade lhe ensinara. É assim, o mundo muda, porém as individualidades são subjetivas demais para oscilarem na mesma cadência. Talvez não subjetivas, mas subjetivamente cristalizadas. E ela nem tinha, nem tem, consciência disso, fez e continua a fazer a escolha de manter-se estática tão automaticamente quanto requenta o café. Imagina só, ser mãe, senhora, avó, esposa e sobretudo mulher. Esposa dum Zé cabra macho do nordeste senhor de grandes pastos, dono duma penca de gado nelore e de uma patriarcal mentalidade de séculos atrás, quatro filhos pra cuidar... Assusta. Ausenta-lhe ar no estômago toda vez que desperta, e ela come farinha pra ver se passa. Bem sabe da dor que sente, apesar de não saber da entorpecência que ela mesma se convence; não saberia entender a hipocrisia que lhe afinge quando finge não saber que sente a ausência de qualquer coisa sem nome, saudade, saudade de alguma coisa que nunca teve, de alguma coisa que viu nos filmes, ouviu nas novelas de rádio... Algo que, de tanto fingir, faz daquilo a sua mais sincera verdade. É tão corriqueira aquela sensação, e é tão natural que coma farinha logo depois, que convenceu-se da inerência ao ser humano esse vazio. E, no fundo... aliás, na superfície e no fim das contas, isso é belo. E real. Esse jeito humano e ingênuo e distante de ser de si. É frágil e pequeno, corriqueiro, recorrente. É passar por esse mundo comendo farinha e requentando café para um alguém que pouco poderia conhecer. Não, não, ela conhece sim, conhece muito bem! Ele é dono daquelas terra tudo, gosta de café e pinga, principalmente quando o último vez depois do primeiro; gosta de sentar na ponta da mesa e de silêncio enquanto fazem amor; tem um prazer imenso ao contemplar o verde do pasto da fazenda, ou quando come de paçoca e carne seca com manteiga de garrafa. Macaxeira nem tanto, a Maria, coziheira já sabe; Não gosta quando ela se impõe não, nem quando grita, nem quando chora. O Zé sempre diz que é fraqueza chorar; ela procura não chorar perto dele, se esconde sempre no banheiro. Conhece bem o seu marido, ela pensa, e se lembra do café que tá no fogo. Tem dia que é melhor nem dirigir palavra a ele, senão o Zé fica bravo e a digestão fica difícil.
     Não admite a si mesma, não ousa se impor, requenta o café, bota a cana no copo, vê a nova mulher do vizinho ir trabalhar, faz amor em silêncio e, assim mesmo, em pleno século XXI, convenceu-se de sua felicidade.

     Ela vai pra varanda e vê o sol se pondo, como é bonito o dourado desse sol, senta na sua cadeira de fins de tarde para ler uma revista ou tricotar, pensa num filho, dois, na farinha que lhe forrou o vazio e no Zé que tá lendo o jornal satisfeito com a xícara de café dele na mão e a pinga esperando do lado.
Tá tudo em paz.

     E isso sim, meu amigo, basta a qualquer um. Convença-se de que vale(u) a pena e você será feliz. O desafio é o convencimento. E a chave á e ignorância no seu melhor e mais leve sentido. 
Basta um pôr-do-sol e um sentimento de dever cumprido.


agora vai

sábado, 27 de novembro de 2010

Renascimento




Segundo o Zen, você vem de lugar-nenhum, e vai para lugar-nenhum. Você existe apenas agora, aqui: não vindo, nem indo. As coisas todas vão passando por você; a sua consciência reflete o que passa, mas ela mesma não se identifica com isso.
Quando um leão ruge diante de um espelho, você pensa que o espelho também ruge? Ou quando o leão se afasta e aparece uma criança dançando, o espelho, esquecendo completamente o leão, passa a dançar com a criança -- você acredita que o espelho realmente dance com a criança?
O espelho não faz nada, ele apenas reflete. A sua consciência é apenas um espelho.
Você nem vem, nem vai. As coisas vêm e vão.
Você se torna um jovem, você fica velho; você está vivo, você está morto.
Todas essas situações são apenas reflexos num lago eterno de consciência.

Osho Osho Live Zen, Volume, 2 Chapter 16

Esta carta representa a evolução dos graus de consciência do modo como é descrita por Friedrich Nietzsche, em seu livro Assim Falou Zarathustra. Ele fala dos três níveis: Camelo, Leão e Criança. O camelo é sonolento, entediado, satisfeito consigo mesmo. Vive iludido julgando-se o cume de uma montanha, mas, na verdade, preocupa-se tanto com a opinião dos outros que quase não tem energia própria. Emergindo do camelo, aparece o leão. Quando nos damos conta de que temos estado abrindo mão da oportunidade de viver realmente a vida, passamos a dizer "não" às demandas dos outros. Nós nos apartamos da multidão, solitários e orgulhosos, rugindo a nossa verdade. A coisa, porém, não acaba por aí. Finalmente, emerge a criança, nem submissa nem rebelde, mas inocente e espontânea, fiel ao seu próprio ser.

Qualquer que seja a posição em que você se encontre neste momento -- sonolento e abatido, ou desafiador e rebelde -- tenha consciência de que isso evoluirá para alguma coisa nova, se você permitir. Este é um tempo de crescimento e mudança."




 reflitam.

sexta-feira, 26 de novembro de 2010


     Acho que pela primeira vez depois de tempos eu senti uma certeza verdadeira de completude, ou qualquer coisa assim parecida, assim perto. Enquanto esperava, vi dois caras saindo da lojinha, um deles com um engradado de cerveja na mão e o outro com cigarros e vodka na outra. Ambos com cara de Hoje-É-Sexta-Feira-E-Ficaremos-Muito-Bêbados, fumaremos muito e transaremos-muito-loucos-Se-Deus-Quiser. Lembrei das minhas noites em que eu saía pra preencher meu vazio com doses etílicas de sabeláoque, sabeláaonde e trocando saliva com sabeláquem. Mulheres, principalmente, diga-se de passagem. O motivo das mulheres é simples: prefiro o macio dos seios. Prefiro a energia feminina, por vezes suave, por vezes nem tanto, mas sempre muito bela; nunca fui muito chegada nessas coisa de compartilhar o que quer que seja com homens que, em cinco minutos de beijo, já estão comprimindo o pênis contra você, doidos pra enfiá-lo em qualquer buraco na primeira oportunidade (ok, isso é uma generalização um tanto quanto maldosa, mas, sinceramente, dos poucos caras sortidos que eu tive o desprazer de beijar sem conhecer, a experiência não foi diferente.)

     Sabe, o negócio é que a solidão daquelas noites ficava sempre evidente a cada manhã. Na memória, no peito, alguma coisa assim vasta, assim vazia, doía o estômago e era indiferente à alma. Assim, eu ia bem, na verdade, continuava com essa minha tranquilidade que me parece bastante surreal as vezes, sabe? Apesar de tudo, apesar de nada. A vida tem dessas coisas, dessas fases e momentos, o negócio é se virar com serenidade e, modéstia a parte, sou profissional nisso. Só que agora, sabe, nesse dia, nesses meses em que pude te ver e conhecer, resistir, não saber, me jogar, temer e abraçar, com cautela, gradativamente, tão doce e estranho que quase me deixou escapulir algumas vezes, mas que sempre, e de alguma forma, me manteve ali... Isso tudo, esse agora. Um agora em que vejo um alguém através do vidro molhado do carro que me faz sentir bem apenas pela pequena perspectiva de que em questão de segundos vou vê-lo andando na minha direção, entrando no carro e me dando um olhar, um beijo, uma mão, qualquer coisa, qualquer contato que me baste os sentidos. Os quais, confesso, me bastam pela simples a própria perspectiva. Um agora em que os dias passam e estou contigo, onde eu gosto de estar. Num agora em que a chuva cai e, mesmo numa ocasião tão banal, te sinto em mim com uma força que há tempos não fazia. Me arde algo nessas coisas que dizem ser a nossa alma, nosso coração, sei lá!, sei que, vivose - e eles assim pulsavam -, vêm me dizer que amam amar alguém de novo e assim.
E eu, 
junto com esse emaranhado que mora dentro de mim, 
reafirmo que amo a forma como a vida me trouxe num ponto em que esse alguém é você.

(ou, diga-se de passagem, amo como de algum lugar você tirou e criou forças 
para entrar e continuar por perto.)

sábado, 20 de novembro de 2010

pierrot the clown

Eu tava ali sentada dentro do carro, a chuva caía e escorria, deslizava no vidro à minha frente sempre intangível; Eu e ela sempre distantes naquela fração de pensamento - chuva que jamais poderia me tocar a pele naquele momento, apesar de que era como se me tocasse por inteiro, ou algo assim, pois me emocionava e se misturava com uma música bonita que eu ouvia e aquilo me levou à algum lugar nas entranhas dos meus pensamentos que os entorpeceu e me encantou. Me encantou a chuva e a música, mas não apenas as duas (as quais de fato tornaram o momento muito mais cinematográfico e emocionante pra mim que se estivessem ausentes) como também a forma em que eu me deparei olhando pra ti. O via ali parado em frente ao caixa daquela lojinha de conveniências depois de sair do carro tão repentinamente como que fosse comprar a vida que estava se esgotando ali...
 Enfim.
Eu o via e tinha certeza. Me bastava, era doce e sereno, era tranquilo.

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

lost

... que me inunde o coração de vertigem toda vez que me ocorrer à mente o teu olhar.
Pois meu peito arde quando os sentidos teimam em te resgatar
E meus pulmões não se aguentem de tanto fôlego
roubado, perdido
retido.



E que me aperte e me abrace.
E que seja forte.
Que me rasge uma peça de roupa qualquer,
que me arranque um botão,
se assim quiser,
Basta que queira.
Que a voracidade desse seu querer transpareça nas mãos;
pois estas que me segurarão pela cintura
e me apertarão os seios;
e que deixarão rastros de calor pelo corpo inteiro;
comprimindo-me contra si na tentativa de ser um só.
Que os olhares furtivos consigam traduzir com sutilieza tudo aquilo que o resto do corpo faz força para não ser ameno. Mas que mesmo sutis, os olhares, ardam.
E que fios dos meus cabelos se confundam em tua língua, pois faz parte. Para então, na tentativa de os retirar da boca,
 se confudam lábios meus com teus e com línguas, os dedos.
Que minha respiração se dilua em teu-nosso suor
enquanto todo o resto que já nem se confunde, nem se dilui, nem se mistura,
pois já se perdeu.
Pois já me perdi.
olhos fechados e tudo mais
E que, por fim, ainda me sinta inteira
mesmo que perdidademente
perdida
em ti;
Mesmo que inteiramente
contendo
você.

sábado, 6 de novembro de 2010

uma brincadeira com as lembranças dos os sentidos dúbios, dos (duplos) sentidos das palavras e dos duplos (sentidos) sorrisos

Não fazia sentido.
Nada fazia sentido!
Eram luzes e sons
Longe das luzes cegantes das cidades
eram as estrelas do céu.
Longe do caos entorpecente das cidades
eram as estrelas 
que dançavam
e as pessoas
que riam
e dançavam
e oscilavam num fluxo constante delas mesmas,
dentro e fora de si mesmas...
Pessoas que se olhavam e se riam
e se beijavam
embriagadas
ou não.
Poucas delas sabiam, porém,
que aquele espetáculo era feito para aqueles
e somente aqueles
que viam além.
Que por detrás de toda uma estrutura,
e que estrutura!,
tinham muito mais cores e muito mais luzes que se podiam ver
aqueles
que viam aquém.
Bom, como ia dizendo
não fazia sentido
mas meus sentidos sentiam
eu amava, 
e ria!

Não fazia sentido.
Nada fazia sentido!
Mas nós ríamos mesmo assim;
Ríamos do fato de procurarmos sentido e,
ainda mais!,
ríamos de nós mesmos
rindo
sem saber o motivo.

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

blargh

O acanhamento não foi suficiente então, de súbto, nua, ela levantou.
Com medo de olhar, com medo da reação dele, virou de costas: Me ama? Verbaliza esse amor, por favor!
Ele corou, se encolheu no canto da cama e, por detras das duas mãos que tapavam o rosto enrubecido, - e ela apenas pôde constatar isso pois a curiosidade, que era tanta, lhe impulsionou a espiar por cima dos ombros- bem baixinho, as palavras escorreram pelos dedos
palavras proferidas tão tímidamente
cuidadosamente
escorreram, finalmente:

9*#(0809eiehf0#)

Me ama mais alto? 
Apenas mais alto?
por favor

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Contaí

Ah, vai, pode falar. Já baixou a madrugada e eu sou a única aqui. Desabafa. Sei que não sou nenhuma Bellucci, muito pelo contrário, sou atraente nem um tiquinho assim, mas teus olhos te acusam, simplesmente! Mostram e transbordam essa tua solidão, esse teu desespero por um ouvinte qualquer. Talvez os meus também me denunciem, e talvez seja por ver neles a minha sede por contato que tu vens. Pois então, puxa essa cadeira e contaí do teu dia, dizaí o que fez e deixou de fazer, fala das tua preocupações e dos teus atos vazios. Quer mais uma dose? Vira mais uminhaí, me acompanha e fala que eu quero ouvir. Desabafa que eu admito, me deleito. É, garoto, meu bem, meu menino, eu adoro uma superficialidade. Adoro relatos dessa juventude prepotente, adoro essas aventurinhas que sempre acabam em merda. Então vai, confessa alguma coisa que eu confesso a minha vontade de extrair algum desespero de alguém só pra fazer valer a minha semana. É que estive por aqui a noite toda e nada de interessante me aconteceu até que você chegou; é melhor me divertir senão desisto de vez e vou embora.

Narra num discurso maldito esses teus feitos, as mulheres que deixou e os cantos que se esqueceu.
Versa aí os lugares por onde andou e as pessoas que conheceu,
os porres épicos e as ressacas mais morais.
Pode até fazer poesia se quiser, desde que seja maldita e sincera
desde que você fique
mesmo que não queira
fique.
Vá embora apenas quando o amanhecer e o sol lhe cegar a retina
só quando a sobriedade fizer parte de ti novamente - se é que isso é possível.
Sobriedade é para os fortes, sabia?
Porra nenhuma, olha você aí chamando o garçom de novo.

Armário

e dessa vez não mais nos veríamos
e dessa, e nesses dias seguintes, como todas as últimas vezes, mal lembraríamos um do outro
poisé, assim mesmo
sem mais
sem menos
nem o pretexto de trocar os casacos serviria
e teu casaco e aqueles beijos cairiam no esquecimento em algum lugar do meu armário muito mais profundo que o próprio espaço físico dele é capaz de comportar... assim mesmo, distante assim mesmo
distante e profundo, bem longe de mim,
nos dissipariamos
e talvez até trocassemos os casacos, eu te devolveria o calor que me emprestaste naquela noite fria
naquela noite que o teu próprio calor me foi insuficiente
mas ah, que nada, que vontade de você que nada,
pega isso aqui e bom, tchau
pois amanhã, depois, me perderei de novo em algum braço qualquer
e trocarei casacos mais, quaisquer, casacos de alguéns,
cheios de perfume mas que desprenderão da minha memória em qualquer brisa que for
e os esquecerei novamente,
em algum lugar ainda mais profundo que a própria ideia de profundidade do meu razo e cheio armário é capaz de suportar

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Desabafo !!!!!!!!!!!!!!!!!!!

Tenho sentido uma necessidade de expressão muito forte ultimamente. Não sei o motivo de ser tão repentino; só sei que é
e que me transborda. 
E que assusta também, por vezes. 
É de uma intensidade tão grande que mesmo quando compartilhada, não é suficiente. Ou pior! Mesmo quando compartilhada, sinto-me equivocada ou desequilibrada aos olhos alheios. Como que conter-me fosse menos nocivo à minha realidade social. Mas... não sei, tenho dúvidas. Sim! Tenho muitas dúvidas! Mal sei eu o que questiono! Só sei que ainda restam lacunas vagas, apenas isso. Algumas angústias me vem ao coração e não sei se estão equivocadas, ou o quão efêmeras são. Tenho vontade de aprender mais, de entender o que é, o que é isso que me aperta o peito, o que é esse essência humana que tanto me questiono. Tenho vontade de estudar sobre assuntos específicos pra ver se canalizo esses nós que me dão. As vezes me parece tudo um tanto quanto inútil,
questionamentos inúteis.. que não me levarão a lugar algum, a não ser o da frustração pois, na verdade - um dia irão me dizer - que resposta nenhuma há para tais perguntas.
 E poisé, daí surge a minha necessidade de gritar alguma coisa. Pois vivo eu envolta de tantas perguntas que, quando me ardem os sentidos poesias, músicas, novos conhecimentos.. sei lá! Dá vontade de expressar o quão me fazem sentir viva, o quão forte eu os sinto e os valorizo. Vontade de gritar pra ver se o mundo sente também, pra ver se alguém vê a beleza que sinto.

Sabe, eu olho o mundo eu vejo as coisas acontecendo, as pessoas se movimentando por entre tudo o que há aí para elas; relacionamentos, sensações... me pergunto se há certeza, se isso está certo. E, se não, o quão errado está! Me pergunto se seria possível uma realidade distinta, se estamos realmente perdidos em nossos comportamentos, nosso sistema, cultura. Me pergunto se realmente poderia haver melhora, mobilização, ou se a realidade humana é realmente feita pra isso, pra viver num mar de dialéticas e contradições. Pois eu sei que a diversidade é algo belo, eu sei que ela faz parte e, juro, eu amo o fato de ela fazer parte. Mas, whatever, pergunto-me se adianta questionar. A oposição é natural, o conflito, o contraste. O ser humano é feito de conflito! Impossível viver numa realidade que não é o espelho de quem nela vive. Não existe realidade sem que nesta falte as características mais básicas dos seres que a constitui. O que vivemos será sempre fruto do que somos e de como misturam-se nossas essências, de como elas se somam. 

Gandhi uma vez disse que não importa o que você faça na vida, tudo será insignificante. O importante é fazer. 
Quando eu li isso pela primeira vez, fiquei indignada e resmunguei comigo mesma que era possível sim fazer a diferença e que tudo isso que vivemos hoje é puramente consequência de um conjunto enorme de pessoas que fizeram! Hoje, porém, entendo melhor o que ele quis dizer. Ou melhor: o que eu acho que ele quis dizer! E penso com meus botões que, no fundo, no fim, no final das contas, não adianta mesmo pois, antes de sermos nós mesmos nas nossas essências mais individuais,
somos humanos. 
E ser humano vai ser pra sempre a mesma coisa contráditória, o mesmo emaranhado de paixões e vontades. Contradições e conflito. O ser humano, enquanto indivíduo, vai ser para sempre esse ser incrível e que pouco compreende de si, que navega pelo mundo sempre em busca de algo. Uns expressando incompreensões ou visões de mundo através da arte, outros buscando a satisfação de suas metas através de carreias sólidas, que prioritáriamente, gerem dinheiro... e por aí vai. Acho que cada um encontra a sua forma de satisfazer-se no intervalo de existência que nos é concedido. Por outro lado, o ser humano enquanto sociedade, dá rumos diferentes para tais expressões em seu meio, e daí a variância de culturas etc, (e, nesse ponto, continuo achando que faz-se sim diferença com o que se faz da vida) as quais, na verdade e no fundo, por diversas que sejam suas instituições e crenças, a essência mais básica de cada uma delas vai ter sempre um ponto de congruência. Pois o ser vai sempre buscar um lugar pra evadir-se, encontrar-se. Para buscar uma grandeza maior que si, algo que dê rumo ao seu destino. E se isso for um deus, uma religão, se isso for ficar cego por tal; uma arte, um outro alguém, alguma poesia.... pode ser simplesmente a busca pelas coisas que o dinheiro proporciona, sei lá, 
são apenas formas diferentes para uma mesma necessidade de dar sentido à existência.

E com toda sinceridade que eu consigo me permitir... minha insatisfação advém da consciência de que isso nunca vai conseguir ser pleno e que vai ter sempre alguém querendo satisfazer-se atropelando a paixão, a individualidade e a vontade alheia. Queria conseguir compreender e proporcionar que cada um conseguisse fazer da sua existência algo dígno, seja lá como isso for, e desde que preserve um bem maior... eu só queria que todo mundo tivesse espaço pra isso, pra expressão e pra conseguir tangir uma tantinho de felicidade. Mas não sei... contradições, dialéticas... isso tudo é muito complicado e intangível, é muito maior que eu e que qualquer outra coisa... a simplicidade é o melhor caminho, no fim
tem que ter tranquilidade pra não pirar.. é por isso que eu gosto tanto... e é por isso que, no fim das contas, sempre me acalma a alma uma certeza que eu não faço força pra ter, nem para praticar... e que eu consegui traduzir em algumas palavras tempos atrás:


Deixo ir, deixo o vento levar as situações que limitam minha serenidade





eu não tou ficando louca.. tou?

pra começar pelo sol e depois, arder

eram tempos de seca na cidade
fazia tempos que não chovia
tava tudo seco, em tom pastel,
inclusive eu
a minha boca e meu coração


ele se aproximou;
os lábios estavam quentes e salgados
quentes, salgados e macios, arderam contra os meus.
a língua, mais quente e úmida, sem palavras
tudo ardia
e eu, gostava

domingo, 17 de outubro de 2010

Escrito por outra 2

É como se a vida fosse realmente maravilhosa. Os amigos reunidos e todos sentindo o momento mais histórico do mundo. Se não foi pra eles, pelo menos foi pra mim. As flores se mexendo, a inobservância dos detalhes, a falta de seriedade...o mundo era nosso. Parece que foi um sonho, mas um sonho bom...muito bom. Fiquei muito mais pensativa, consegui dar vazão aos meus pensamentos que, mesmo comentando com alguém, não seria a mesma coisa.(...) O seu redor fica mais intenso e tudo extremamente bonito, tudo parece um sonho. Derrepente você acorda no meio de uma barraca e a sua barraca entre milhões de barracas e milhões de pessoas lindas que estão explodindo de alegria e que estão ali e simplesmente ali. Conseguiram fazer desse evento uma minicidade, uma cidade que fizesse com que todos os problemas do mundo fossem esquecidos e que a vida ali, naquele momento, fosse eternizada. Foi uma experiência muito bem vivida e pra mim... chega.




PS.: Este texto NÃO foi escrito por Manuela abdala.
PS².: esta versão de texto possui cortes, o texto original não convém neste recinto.

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

A Harpa Mágica, O Poeta, A Cigana e As paixões e Desilusões No Mundo Mágico do Lugar-Comum

(Parte IV - Desilusões no Mundo Mágico do Lugar-Comum I)

...

Havia um detalhe que possivelmente explicaria a decadência do poeta. Os ciganos esconderam, entre tantos segredos que guardavam, que a magia que a harpa continha era, na verdade, uma maldição. Uma maldição que consistia na obcessão de seu antigo dono, um escravo que nascera nas teras da Babilônia, no sul da Mesopotâmia. Um homem cujas pretensões de ascenção o levaram à loucura e cujas ambições eram grandes demais para se conterem na simples condição em que nascera. Acreditava que, por meio do seu dom natural para com a música, jamais as alcançaria e, por demais apegado a elas, vendeu sua alma numa encruzilhada. Selando tal, e maldita troca, em um beijo com o diabo, trocou sua alma pelo dom supremo da arte, pela magia de enfeitiçar, através das mais belas melodias já ouvidas, qualquer forma de vida que ousasse escutá-lo. E sim, conseguiu e sobreviveu durante anos na corte a esbanjar dos mais belos privilégios e a participar dos mais dionisíacos bacanais. Encantou os mais belos homens e mulheres, conseguiu e acumulou toneladas douradas de ouro. O único e mais precioso bem, porém, que almejava, jamais conseguira: a sua leve, suave e completa liberdade. Escravo deixara de ser logo depois das primeiras notas tocadas, porém, o seu destino estava nas mãos de outro, logo logo ele teria que pagar a dívida que fizera. Assim, a sua alma, que já não o pertencia mais, definhava e ardia em mãos alheias, mas a tênue ligação que ainda possuía com ela, a qual doía cada dia mais, o causava desgosto. O tempo foi passando e a longa vida o foi ensinando verdadeiras virtudes, mas era tarde demais. E, com o poder do desgosto humano somados à dívida que devia e à frieza implacável do demônio, a alma do antigo escravo foi condenada a enclausurar-se para sempre nas entranhas da bela harpa consumindo a humildade e as energias de quem ousasse roçar os sentidos em suas cordas. Até certo ponto, meu bem, pois

Outro porém, havia. Sim, minha bela, no mundo ainda há compaixão, ainda há o amor. Assim sendo, ao invés de condenar tais apaixonados pela música a arderem para sempre nas estranhas ardilosas do arrependimento, a alma do antigo escravo que regia e dava rumo ao destino dos pobres mortais que, ambiciosos e ansiosos pela perfeição musical perdiam-se no obscuro mundo de tal vaidade, os concedia o poder da escolha. Eram seres condenados a liberdade, e a antiga e sábia alma do escravo assim compreendia. 

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

A Harpa Mágica, O Poeta, A Cigana e As paixões e Desilusões No Mundo Mágico do Lugar-Comum

(Parte III - A Harpa Mágica e a Cigana)
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Um belo dia, chega na cidade, vindo dos gélidos montes francos - porém, de origem das terras paralelas ao equador, onde os pássaros tem penas com mais de mil cores e os peixinhos, escamas mais reluzentes que diamantes. Onde os povos dão as mãos e dançam danças sagradas durante dias em rituais culturais, religiosos, espirituais e artísticos em celebração e homenagem à Gaya - uma trupe de ciganos dotados das mais argilosas sabedorias e mais sábias artes-e-manhas. Trouxeram, alarmando o povoado e enfeitiçando o poeta,  uma harpa mágica que, segundo a lenda, tornava qualquer ser vivo em um exímio instrumentista, mais virtuose que todos os solistas de todas as osquestras de todos os reinos, e, com sua arte, poderia conquistar qualquer criatura do universo. Como se já não bastasse, em meio aos lenços e cores e malabares que aquela incrível trupe continha, o jovem artista avistou a mais bela criatura que já perpassou pelos seus olhos tão vividos. Uma linda cigana de grandes olhos negros; um par de brincos com pedras da cor do arco-íris pendia de suas orelhas que ficavam um tanto quanto escondidas por detrás das volumosas, longas e negras madeixas, As quais dançavam e brincavam ao redor da moça enquanto ela fazia movimentos suaves que ritmavam com a cadência da bela música que exalava da harpa mágica. A cigana brincava com os pés, brincava de segurar na borda da longa saia, de rodar e sorrir e era sim, era uma aparição aos olhos do nosso artista. Era poesia em movimento, personificada.

...

Born a poor young country boy--Mother Nature's son
All day long I'm sitting singing songs for everyone.

Sit beside a mountain stream--see her waters rise
Listen to the pretty sound of music as she flies.

Find me in my field of grass--Mother Nature's son
Swaying daises sing a lazy song beneath the sun.

...

O jovem não hesitara e, como quem tira o próprio filho de um celeiro em chamas, comprou caro a harpa dos ciganos com intuito de realizar-se o músico que sempre quis e conquistar a bela cigana. Durante dias e noites, incansável, o poeta tocou sua harpa. Para os reis, para os bichos, para os deuses e para sua amada, tocou como ninguém jamais vira, com um amor e dedicação que músico algum jamais tocara. Contudo, o tempo passava cada vez mais ligeiro e, sem que ele percebesse, mesmo já havendo conquistado sua amada de corpo e alma, nada mais tinha a sua atenção. Se obcecara pela sua harpa e definhava cada dia mais na solidão da sua música. 

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

A Harpa Mágica, O Poeta, A Cigana e As paixões e Desilusões No Mundo Mágico do Lugar-Comum

(Parte II - O Poeta)
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Há não muito tempo atrás, nessa mesma galáxia, ou melhor e talvez, no mesmo planeta em que vivemos, havia um poeta. Sim, um poeta ainda muito jovem, mas cujos versos falavam das dores, alegrias e proezas de uma longa vida; a qual foi ainda mais intensa do que longa. O jovem vagava pelo seu reino encantando quem quer que fosse. Muitos o chamavam de visionário. Muitos, de rebelde e alguns simplesmente, de artista. Outros não ousavam decifrá-lo ou descrevê-lo, limitá-lo ou definí-lo, simplesmente o contemplavam, curiosos. Fato é que, mesmo os mais receosos aderiram ao menos a um dizer, a uma frase ou a alguma rima do jovem. Mesmos os mais desconfiados sucumbiram, no mínimo, a um gesto que emanara dele. Era simples, porém muito rico em virtudes; era humilde e modesto, e muito, muito belo. Era envolto numa beleza inconcebível por muitos, que se estendia ao longo de toda sua existência e plenitude como ser; era belo no corpo, na alma, no espírito, com as palavras e pela sua sabedoria. Era dono de um olhar doce, pouco visto por aquelas terras, um olhar doce, profundo e reconfortante. Possuía um abraço que muitos dariam o mundo apenas para estarem envoltos em tal.

O jovem poeta tinha uma simples função em seu reino, função cujo único objetivo era amenizar a realidade de todos com seus versos, poemas e sábios dizeres. Vagava por aquelas terras distribuindo-os a quem quer que fosse. Existem duas principais teorias acerca desse fator. A primeira que surgiu foi a linha dos que acreditam que o seu interesse era deixar as pessoas mais acomodadas, proporcionando conforto e anestesiamento da diante da vida em troca de ouro e proteção do Rei. Eles acreditam que o Rei e o poeta compartilhavam de uma relação de troca de favores que se estendeu até o fatídico dia da chegada dos ciganos àquelas calmas terras - dia que, daqui algumas linhas, uma caneca de café e talvez uma ida à janela pra ver se vai chover, relatarei. Há uma teoria curiosa que diz que a única vaidade do poeta era a de ser único, curinga. Vaidade de ser diferente, de se destacar dos demais por conseguir ver além e por isso, com seus versos e falso altruísmo, mantinha o restante da população imersa na própria ignorância. A outra linha principal de pensamento, na qual eu acredito, diga-se de passagem, diz que a sua única vontade era despertar sua cidade do entorpecimento crônico do qual sofria; gostaria que, diante de sua arte, ela, sua cidade, finalmente pudesse acordar para o mundo e apreciá-lo como deve ser. E ainda mais! Com mensagens de compaixão e amor incondicional, ele esperava que as pessoas entendessem tais valores e os praticasse. Mas... né, pobre do poeta se ele visse o mundo como é hoje. Se ele concebesse que alguns anos após a sua partida, tal doença se estenderia, e que a população que ele tanto cuidara, cresceria exponencialmente, extendendo-se ao longo de todo o Planeta; e mais pobre ainda dele se compreendesse o que é a vastidão do Planeta e o que são pessoas ao longo de todo ele sofrendo da mesma contemporânea ignorância.
Pois bem, meu bem, me desculpe, tentarei focar novamente nas aventuras do nosso artista.

O jovem conheceu várias moças ao longo de suas andanças, escreveu crônicas e poemas para todas elas como forma de confortá-las, de mostrar a elas que ainda existia um cavalheiro que as apressiasse pelas suas boas almas. Era cobiçado por elas, principalmente as da alta sociedade - que encontravam nele uma liberdade e fluência muito contrastantes com suas realidades de aparências, cházinhos da tarde e sorriso amarelo. Porém, nenhuma delas na verdade o interessava, mesmo que ainda se contentasse com a facilidade que tinha pra ver beleza e virtude na simples existência, na essência mais básica dela. Havia um detalhe, imerso em toda sua sabedoria e sensibilidade. Havia uma paixão encravada em seu coração, algo que ele nunca se perdoaria se não realizasse antes de deixar o plano material de sua existência. Que consumia os seus sonhos e transbordava de sua alma, algo que ele nunca havia compartilhado com ninguém mas que, na realidade, era a finalidade de toda a sua existência. Era um amante assíduo de todas as artes, e uma simplesmente o fascinava mais que tudo o que havia conhecido até então: a Música.

A Harpa Mágica, O Poeta, A Cigana e As paixões e Desilusões No Mundo Mágico do Lugar-Comum

(Parte I - Título Provisório-Ou-Não)
...
- Estou tão cansada, meu bem.
Ela enviou via mensagem instantânea pelo computador.
- Andei tanto hoje! Pra cima e pra baixo sem parar... tava um calor dos infernos, tava seco, empoeirado e quente. Cansei. Queria voltar aos meus cinco anos de idade em que minha mãe me dava banho quando eu pedia ou estava muito doente, me fazia uma massagem - que na verdade era mais carinho do que massagem - e me botava pra dormir contando alguma história de tempos distantes, qualquer coisa que me fizesse esquecer,  qualquer coisa que se pareçesse menos com o mundo que se estendia lá fora.
...
Alguns minutos depois, uma mensagem dele chega no celular dela:
- Já tá na cama?
- Já, porque?
- Eu quero te contar uma história...


(continua...)

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Primavera



E ela andou. Andou e foi pensando em si, pensando no que ela absorvera durante esses poucos anos; queria entender  o que representava pra si e pro mundo. Pensou que aquele era de fato um belo dia para uma longa caminhada, já que seus pensamentos não conseguiriam conter-se num intervalo de tempo tão pequeno. Pois, além de tempo, era preciso gastá-lo nas ruas. Ver e sentir as coisas passando; era preciso caminhar sobre as calçadas, sentir o odor das pessoas apressadas, ver os carros; era preciso de fato sentir o ambiente que ela se inseria e vivia e, por vezes, se esquecia. Então resolveu ir até a última parada de ônibus que lhe fosse possível e só lá, depois de muito ver las cosas, ela voltaria pra casa com os pensamentos mais amenos.

Foi então que ela começou a reparar nas flores.. no céu, nas árvores; nas folhas, mesmo que secas. Reparou na arquitetura geométrica da cidade; no contraste que o céu fazia com o concreto. E foi ali, no meio do planalto central, por detrás das lentes dos óculos escuros, que Brasília se mostrou inconcebivelmente bela. O céu era de uma beleza incrível. Aahh, as primeiras nuvens da primavera! Raios formavam feixes dourados de luz que perfuravam as jovens nuvens como se iluminassem algo divino. E, de fato, a minha Brasília no primeiro dia de primavera o era, florida, cheia de cor.

(No fim do trajeto foi que ela percebeu que aquela angústia de ter sempre que pensar e refletir sobre algo fora dissolvida pela beleza natural da vida que ainda fluia por entre aquela selva de pedra.)


quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Temps Noir

Quando eu reparei, tava ele ali encostado na parede, me olhando por detrás do chapéu; mãos no bolso, fumando um cigarro no canto da boca. Com ar sedutor e agressivo - como quem dizia vem-comigo-e-a-gente-se-acaba -, a sua face profetizava as seguintes palavras: 'Eu sou mais forte que você, e é por isso que eu vou vencer. Vencerei não apenas No-Fim-Das-Contas, mas a cada fração de segundo. Você vai sucumbir a mim, sabes disso, certo? Aliás, você sucumbe e se entrega sem nem perceber. Eu sei que você sabe, o detalhe é que você se esquece.'

Foi sim.. foi naquele olhar escondido pode detrás da fumaça que pude ver todos aqueles meus anos, todas aquelas minhas memórias e suposições do que poderia ter sido... os quais, no fundo, não importavam mais. Tudo havia passado; restara apenas o pó e algumas tristezas. Restara o medo. Restara você me contando das tuas nostalgias da meninice... de como o mundo lhe parecia mais leve.. Lembra? Engraçado, né? A ingenuidade da juventude se aplicava tanto na forma em que víamos a vida.. em como a sentíamos... mas a verdade é que o mundo foi sempre assim, a ordem-natural-das-coias, também. Você diz que queria voltar naqueles tempos.. mas eu não, acho que eu tenho um pouco de medo da minha infância. Sei também que, voltando ou não, esse encontro seria inevitável; não doeria menos adiá-lo. Pois, a verdade é que ele, ali, me olhando com desdém e superioridade, esteve sempre ali - e sempre estará, encostado naquela esquina, escancarado em qualquer lugar à espera de algum inconformado que se atreva a notá-lo.

Foi sim... foi naquele fim de tarde em que as coisas todas pareciam diluídas demais, distantes demais, que o Tempo, com aquele trejeito noir de fumar seu cigarro, olhou pra mim com aquela intensidade que há tempos não fazia, e foi assim mesmo, daquele jeito, que o olhar dele me tapeou a cara e o coração como há muito tempo eu não sentia.

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

escrito por outra.

Foi como se tivessemos voltado no tempo, pelo menos pra mim. Os sonhos, as risadas, o rítmo, as carícias. É como se...eu não sei. Sei que dormi e bastava abrir os olhos para ver o rosto dele frente o meu e  meu coração quase pulou para fora. O beijo? ah, o beijo... Mas, como se não gostasse mais, veio o sexo. Sexo rápido, sem muitos detalhes ou pormenores. Demasiado rápido. Pensei muito no carnal, muito mais do que no sentimental. Achei que estava finalmente livre dele. Disse que não queria me fazer sofrer, e não fez mesmo. Não criei esperança, mesmo que quisesse. O carro como se tivesse um teto solar e as estrelas nos observavavam. Agora... os dois sumiram. É como se não quisessem. Ele ama outra, seria disperdiçar muito meu tempo se ainda o quisesse de novo. Sempre quis, nunca o tive. Aquelas risadas, os abraços...e como queria que me portasse?

Ps.: este texto melancolico e melodramático NÃO foi escrito por Manuela Abdala.

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Visceral como deve ser

Sinto falta das vísceras. É... Admito. Eu sinto falta da profundidade. Me contentei com a leveza e o descompromisso com que venho encarando a vida nesses ultimos tempos, achando gostosa a minha despreocupação com as coisas em geral. Vivendo num momento em que, mesmo sem saber se sou eu quem mudou ou se é minh'alma que não tá tão envolvida assim, me sinto leve e simplesmente vou. Deixando a coisa fluir e fui fluindo junto com ela. Até que me veio o ócio e me botou contra a parede. Até me apareceu o ócio, corrosivo e enloquecerdor, e me abandonou horas a fio a reperceber o vazio. Aquele grande e silencioso vazio que me habita há semanas, meses, e que vai ecoando em meus pensamentos que agora, no silêncio, ficam mais evidentes.

Foi aí que me dei conta das minhas saudades. Dei-me conta do tanto que me distanciei de mim mesma e de minhas paixões. Eu quero ir, sim! Eu quero! Quero fluir junto com a ordem natural das coisas.. mas quero ir cavando ao mesmo tempo, quero ultrapassar o limbo da vivência! Não simplesmente tocar, e sim apertar e descabelar; quero gritar e dançar e abraçar bem forte; segurar na borda da saia e rodar num samba cuja cadência vai impregnar o coração e minha pulsação vai ritmar com meus pés o batuque de coisa qualquer. Por sujas que sejam as vísceras, eu as desejo. Sim, assim mesmo, humanas e reais e intensas.

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Hoje eu só quero paz e...

hoje eu não quero mais que me julgues pelo que fiz. eu sei que errei e sei que não fui justo e que posso até ter dissimulado a mim mesmo; mas foi real o que eu vivi contigo. foram reais as vezes em que disse que te amava e que chorei por ciúmes e insegurança. minhas súplicas, meus desesperos, todos eles. talvez, talvez sim tenha projetado em ti meu erro e vi em você tudo aquilo que tinha cometido; temia, temia por nós todas as terríveis consequências do que fiz. mas elas não vieram cedo. elas se demoraram assim como meu segredo ficou calado. e fomos. nos deterioramos por méritos próprios e nos despedimos.

mas como eu disse.. eu não quero mais cantar a decadência humana, muito menos a minha. não quero te provar o quanto te amei ou te quis, e nem justificar erro nenhum. hoje eu não quero dizer que tuas novas interpretações do que fomos, somadas à raiva, te levaram a conclusões um tanto quanto plausíveis, mas as quais também não quero dizer-te o quão equivocadas estão. não quero relatar-te a versão original delas, nem discutir o quão real foi tudo e o quão injusto está sendo em diminuir-me assim. não quero traduzir em palavras as minhas frustrações. tudo por que no fundo eu te compreendo, tudo por que no fundo admito que errei. tudo por que no fundo estou cansado e desapontado e triste que tenhamos chegado a tal ponto. no momento, eu só quero paz


e perdão.

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Simplesmente, por Caio F Abreu

Amor


Porque quando fecho os olhos, é você quem eu vejo; aos lados, em cima, embaixo, por fora e por dentro de mim. Dilacerando felicidades de mentira, desconstruindo tudo o que planejei, abrindo todas as janelas para um mundo deserto. É você quem sorri, morde o lábio, fala grosso, conta histórias, me tira do sério, faz ares de palhaço, pinta segredos, ilumina o corredor por onde passo todos os dias. É agora que quero dividir maçãs, achar o fim do arco-íris, pisar sobre estrelas e acordar serena. É para já que preciso contar as descobertas, alisar seu peito, preparar uma massa, sentir seus cílios.


“Claro, o dia de amanhã cuidará do dia de amanhã e tudo chegará no tempo exato. Mas e o dia de hoje?”


Não quero saber de medo, paciência, tempo que vai chegar

Não negue, apareça. Seja forte.




Porque é preciso coragem para se arriscar num futuro incerto. Não posso esperar. Tenho tudo pronto dentro de mim e uma alma que só sabe viver presentes. Sem esperas, sem amarras, sem receios, sem cobertas, sem sentido, sem passados.




É preciso que você venha nesse exato momento. Abandone os antes.Chame do que quiser. Mas venha. Quero dividir meus erros, loucuras, beijos, chocolates... Apague minhas interrogações. Por que estamos tão perto e tão longe?



Quero acabar com as leis da física, dois corpos ocuparem o mesmo lugar! Não nego. Tenho um grande medo de ser sozinha. Não sou pedaço. 
Mas não me basto.

Desamor

Ei, menina... eu gostaria de te dizer algumas coisinhas hoje, agora, assim... Não sei por que decidi isso do nada, não sei... mas preciso te dizer, você pode ouvir? Você quer? Bom, de qualquer forma eu direi, não precisa ler nem ouvir tudo, não precisa nem fingir que leu ou ouviu tudo, só tenta. É que eu me sinto legal  perto de ti. Eu me sinto bem e o tempo passa e parece que a gente nem vê. O tempo voa, a gente sempre diz isso um pro outro - ou às vezes só murmuramos baixinho pra nós mesmos - quando eu reslvo te perguntar as horas, ou vice e versa, e nos assustamos quando, sem exceção, vemos que já se passou uma quantidade enorme e leve de segundos e minutos. E acho que você, assim como eu, pensa que poxa, o tempo pra nós poderia ser maior. Poderiam nos conceder quilos e quilos de horas e minutos, pois só em milhares deles é que conseguiríamos conter-nos, conter nossas conversas e nossos silêncios e alguns beijos... Pensando em ti assim é tão bom lembrar desses pequenos momentos, lembrar da gente olhando o nada, ali parados em estado de contemplação, a gente fazendo qualquer coisa, conversando qualquer besteira, compartilhando nossas experiências tão distintas.. Mas daí quando eu te vejo parada na minha frente e olho pra você assim de novo, assim mais do mesmo.. sei não... quando eu chego bem perto da tua pele e fecho os olhos e sinto o cheiro do teu perfume misturado com o teu natural, orgânico, sei lá, eu peço, eu tento, eu imploro para o meu coração bater mais forte e minhas entranhas se contorcerem por você... eu tento ouvir aquela música e associá-la a nós. Eu tento me emocionar... juro. O teu sorriso, eu acho o teu sorriso tão lindo... eu queria sentir ciúmes dele, queria sentir aquela vontade egoísta de contê-lo só pra mim, mas eu não sinto. Mas o frio na barriga não vem, nem o suor, frio. Meu coração não acerela e minhas entranhas continuam indiferentes.

Por isso me despeço... e desculpa se foi aqui, assim, agora, se você leu e ouviu tudo e chegou até aqui e lhe pareci indiferente... Desculpa, é que tenho medo... é tudo tão ameno, vou ver se longe de você alguma coisa acontece; algum sentimento se manifesta ou meu coração deixa de mania de solidão. Prefiro me despedir antes que comece a arder, a fazer efeito... antes que comece a doer mais em ti e nada em mim.

domingo, 15 de agosto de 2010

Loucura III

Precisa-se de noites eternas e banhos infindos. Foi a nota mental que me ocorreu enquanto eu tomava um puta dum banho depois de um dia daqueles. Porém, segundos depois, ocorreu-me o seguinte:

Que seria de mim se, de repente, tal madrugada nunca mais acabasse? Que seria de mim se meu relógio simplesmente parasse? E os banhos? E se eu ficasse presa em um? Vezenquando nos prendemos e apegamos a certos momentos que, se nos fosse dada a escolha de os vivermos para sempre, pensamos nós que os viveríamos. Mas isso é auto engano.
Se nos fosse concebida tal escolha no plano tempo/espaço/infinito, teríamos medo do limbo da eternidade e optaríamos pela temporalidade natural da vida. Por isso penso que, bem no fundo, estamos todos razoavelmente satisfeitos com essa ordem. Os que não se encaixam, ou arranjam modos alternativos de vivê-la, ou mergulham na própria noção temporal em realidades inventadas ou distorcidas, mescladas; e tais que submergem no  próprio subjetivismo, paralelos, alheios, são julgados como loucos pelos mais conformados.
Mas isso são outros quinhentos.








(a loucura é uma determinação sócio-cultural um tanto quanto injusta. Assusta, eu sei. Mas vai saber quem realmente são os loucos. Vai saber se é mais real estar acordado do que sonhando.. vai saber.)

loucura II



Precisa-se de noites eternas e banhos infindos. Foi a nota mental que me ocorreu enquanto eu tomava um puta dum banho depois de um dia daqueles. Logo depois me ocorreu outro pensamento: por que a realidade me parece tão razoável e tais desejos, tão passageiros? Por que é que nós projetamos tantas possibilidades e tantas vontades, das mais plausíveis às mais improváveis, alternativas à realidade tal qual ela é, sendo esta, no fim das contas, vezes mais sensata que estes? - Err... Seria a sensatez a melhor alternativa ? - A realidade, em toda sua grandiosa relatividade, é mesmo comedida o suficiente? Poderia eu bolar algum outro modelo do real, e poderia este ser mais razoável do que o que já vigora? Quero dizer... num plano mais essencial, no plano da 'ordem natural das coisas', o que nossas pequenas vontades representam diante de tal grandiosidade? Claro que existem infinitos "E Se", mas, seria possível mudar a essência disso tudo? O ser humano, em toda sua natureza, ganância, fraqueza, humildade, pequenez, prepotência, com toda sua paixão, instinto... amor, teria dado rumo diferente à realidade? Sei não.. me parece intangível, quase que inexistente tal possibilidade... 



loucura

Precisa-se de noites eternas e banhos infindos. Foi a nota mental que me ocorreu enquanto eu tomava um puta dum banho depois de um dia daqueles. Logo depois pensei no mundo e nos fatos e nas pessoas andando nas ruas e vivendo suas vidas e na sociedade e no capialismo e em todas as criações humanas, nas escolas literárias, na imprensa, nas vanguardas, nas produções, na economia, na política, nas eleições, na poesia, no esporte, nas pesquisas, invenções, na ciência. Todas essas coisas infinitas que compõe nossa realidade e... o que distingue o mundo real do mundo dos sonhos, se elas também habitam nosso imaginário? Nada, pois. No fundo, a vida é uma criação tão nossa quanto nossos sonhos são. Estes são sim, reflexos das referências que captamos do lado de cá, mas a realidade é também consequência de constantes materializações da  nossa mente. Além do mais, a realidade depende de uma percepção tão subjetiva quanto eles; e o que não podemos controlar, ou seja, o que aparentemente nos foge do controle, é equivalente ao nosso subconsciente.



(Acho, Penso...  pelo menos enquanto dura essa linha de pensamento.)


Sabe... às vezes um sonho parece bom, às vezes um desejo, uma vontade... E então sentimos profunda vontade de vivê-los para sempre, de viver aquilo que idealizamos, de um mundo nosso; muitos falam em acordar pra realidade, botar o pé no chão. Por que diabos é tão importante aceitar as coisas tais quais são? Por que não enlouquecer de vez e viver o que se quer? Loucura é denominação dos mais conformados para conceituar aqueles que não se enquadram; e conceituar é limitar. Pobrezinhos, eu prefiro é sonhar. Prefiro pirar de vez e rir e achar tudo poesia e ser feliz acreditando num mundo do meu jeito.

terça-feira, 10 de agosto de 2010

madrugada

Sabe, ando constatando o quão imbecil pode ser a nossa - tá bom, a minha - existência. É madrugada de um sábado e eu escolhi não inserir-me na noite boêmia da cidade. Escolhi enclausurar-me em meu quarto e - idealizei - nas palavras de algum bom livro. Restringi-me ao quarto. E à Internet. Cara, que perda de tempo é a Internet, ou melhor: que perda de tempo é a forma com a qual a estou utilizando essa noite.
Você começa a se questionar sobre a utilidade dessa madrugada ociosa e, não sabe o quão estúpido está sendo ao perder horas e horas na frente de uma tela que projeta uma realidade pouco sensual (sensual no sentido de... sentidos! Sim, visão e olfato estão super bem alimentados mas, e o resto?). Não sabe o quão idiota está sendo de estar falando sozinho da forma que está - juro, essa solidão em que me encontro provavelmente levaria muitos seres a extremos como esse (o problema não é falar sozinho...  Mas eu estou de fato parecendo meio deveras panaca pela forma com a qual estou a falar comigo mesmo). Não sabe o quão avoadamente estúpido foi ao deixar o vinho - já que você pensava que seria poético ficar bebendo vinho, sozinho, lendo poesias e ouvindo música - cair no teclado do seu computador.

(Oh só, as aleatoriedades começam a ser fazer presentes e você nem percebe)

Você, sozinho assim, contemplando a si mesmo na miséria de seus próprios pensamentos, não sabe o quão ingênuo é sempre esperar o Amor sem ao menos saber o que de fato ele é (opa! Olha a minha decadência me levando às vísceras clichês). E, na profunda superficialidade disso tudo, você não sabe nem o quão humano é toda essa bagunça


(um minuto de silêncio).

Mentira. Se tens algo que sabe, é da decadente e contemporânea humanidade disso tudo.

cansaço

Hoje é dia de o mundo se apresentar um tantinho mais melancólico diante desses meus olhos cansados, cabisbaixos; Pelas metades; expressando esse lack of energy de dentro, Sabe? Deixarei que minhas pálpebras pendam como bem quiserem; até o limite que ainda me permita contemplar o exterior, mas que me mantenha mais dentro do que fora - sem aquele arregalar dos olhos que faz arder e deixa entrar toda essa poluição visual. Tudo simplesmente mais suave. Sem a intensidade com a qual costumo me entregar e viver e tragar todo tipo de informação que me é bombardeada. Não, não: hoje é dia de deixar a cabeça descansar em qualquer lugar trangível; em qualquer pesamento que não demande esforço; vendo a vida passar como um borrão, sem apegar-me a imagem alguma, só às linhas e às luzes e às cores que se desenham quando a realidade passa com certa velocidade diante do olhar; que nem uma fotografia de baixa exposição, em que o orbturador permanece aberto durante muitos segundos... orbturador de velocidade baixa; realidade de luzes borradas e brilhantes.

Hoje é dia de, sei lá, cansar de cansar das coisas todas e simplesmente me entregar a esse balanço natural da vida... afrouxar as rédias e deixar-se ir um pouco à deriva de tudo.

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

oh céus, que dia! cansei. desde de manha que acordei cedo pra ir pra aula e morri de frio e de preguiça no caminho, tava ventando, gelado e o sono pressionando, pesado. aula, aula, física, química, não, química não, vou pra biblioteca, depois aula, intervalo, vamo na cantina, vamo. bora pro sol, bora. ta tão frio né?, o vento ta tão gelado hoje, né?, é mas ontem foi pior, ontem o céu tava cinza, é mesmo.. aula aula, literatura, ai, que amor, literatura. ufa, suspiro. aula aula, biologia, ah não, o marcão nao! droga. eba, almoço, fome, fome... desde muito tempo acordo de manhã pra fazer esse mesmo caminho, a parte boa da manhã é que o sol não tá tão assim, intenso. e meu coração ainda morno do sono e de saudade.

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

escancarado

Eu sei quando ela aparece aqui em casa. Eu sei pois ela deixa rastros de si que condizem bem com a própria natureza. Ela é escandalosa, histérica, e assim acaba por deixar tudo quanto é luz acesa; fica tudo escancarado, aberto, as portas, as janelas... bem como aquele par de pernas tanto o faz em minha presença, bem como aquela boca que não cala.
Ela vem, me abre  o coração e depois abandona-me deixando pra trás tudo quanto é buraco, tudo quanto é vazio... Eu, após a sua partida, escancarado e exposto a uma natureza que não é minha, mas que já me impregnou o gingado, deixo tudo aberto à espera de que ela volte, nos tranque e nos isole do mundo de novo. Eu queria ser ela. Ou melhor, queria ser dela. Ou, melhor ainda!, queria que ela me olhasse com aqueles olhos que me ferem as entranhas e dissesse, dentre toda aquela ladainha que costuma sair por entre aquele pelo par de lábios: eu sou tua.

quinta-feira, 29 de julho de 2010

sobre a tal felicidade de quando a tua paixão me inundava...

Agora percebo. Me encontro numa oscilação entre essencial e efêmero. Entre sentimento e razão. Entre passado, presente e o que deve ser feito nessa busca de felicidade. Afinal, o que é digno de felicidade? É de direito ou é algo a ser recebido em troca de outro algo? É preciso mesmo tempestade antes do sol? E tristeza derretida em lágrimas antes do sorriso? Tudo, pois. Percebo que procuro a beleza em suas variadas formas e em cada detalhe, como se isso me nutrisse e desse mil razões e sentidos para viver; e não é aquela beleza da superfície, do efêmero, é aquela beleza verdadeira, É a procura pela essência. É meu incosciente, meu instinto, farejando tudo aquilo que me dê forças e cada vez mais vontade de tudo... e a poesia dá. A arte dá. E, acima de tudo, o amor dá. O amor é a oitava arte, o amor é poesia e melodia juntas. É isso que nos faz ficar nessa contemplação danada de uma coisa tão grandiosa, complexa e indefinível. Percebo o quão pequenas tornam-se tais oscilações e questionamentos perto da completude suave e bonita que você me traz. E não seria isso felicidade?
eu quero falar do que é essencial, esse algo pelo qual a gente vive e nos bota de pé todo santo dia de manhã. o que nos inspira, o que nos impede de sucumbir. quero cantar o que há de mais humano, mesmo que nós, integrantes da sociedade contemporânea, tenhamos nos esquecido do afeto, do toque, do respeito e da compaixão. E quero gritar aos quatro ventos palavras como estas, as quais misturam tanto ficção quanto realidade, tanto poesia quanto prosa. quero disseminar a essência humana. a esperança de que, mesmo que não possamos contagiar um mundo inteiro, podemos fazer sim a diferença se conscientizarmos quem está por perto e trabalharmos em prol de um benefício mais universal e menos individual.



(ai ai... nem sei)

A Menina que Roubava Livros

Terminar livros que gostamos é sempre um pouco doloroso. É dizer adeus a todos os personagens, a todas as palvras, metáforas e analogias nele contidas. Despedidas, como todos estamos cansados de saber, deixam sempre um rastro de tristeza. Por isso não ousei continuar virando aquelas páginas; por isso fingi não haver curiosidade, por isso a diluí em alguma desculpa esfarrapada que arranjei para pausar a minha leitura. Dormi.

 Então, sonhei. Sonhei com um olhar, eterno e intensamente terno, o qual paralizou-se em alguma página daquele livro que eu nunca mais abri. Sonhei com um acordeão e o velho Hans sentado ao lado da lareira tocando-o, fazendo as notas dançarem e botarem um tantinho mais de cor na vida daquele velho judeu e daquela menina. É, talvez a única vantagem de não mais tê-lo explorado - o livro - é que a menina que roubava livros fosse viver pra sempre.




Acordei. E em um não tão belo dia eu voltei a abrir o livro e o terminei. Depois disso, nunca mais pude sentir cada descrição do olhar do alemão mais doce que havia no Terceiro Reich; ou a maneira como as palavras saíam da boca de Liesel e caíam no chão. Mas, como tudo na vida há de ter um lado bom, aquele livro me deixou toda poesia quanto pudesse exalar. E foi assim, durante dias: eu a cheirava, a transbordava, a via e a sentia em todo lugar que eu ia. O lirismo com o qual uma Alemanha em ruínas era descrita, a suavidade com que um personagem caminhava por aquelas páginas e tocava seu acordeão... Ah, tudo isso assim, só pra mim, eterno quanto a tinta que desenhava aquelas palavras naquele livro que, um dia, eu tive a sorte de começar a ler.